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Finanças Pessoais: 3 lições que todo pai/mãe deveria ensinar ao seu adolescente

Brasil é o 4° pior resultado em educação financeira para adolescentes



Se você não está ensinando seus filhos sobre finanças pessoais, muito provavelmente eles têm conhecimento abaixo da média em assuntos relacionados a dinheiro. Isto é a conclusão da última pesquisa realizada pela OECD, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.[1] Adolescentes que aprendem sobre finanças com os pais pontuaram 27 pontos a mais do que adolescentes que não aprendem com os pais. Como comparação os adolescentes que aprendem sobre finanças pela internet pontuaram 10 pontos melhores do que os adolescentes que não aprendem sobre finanças pela internet.


Então os nossos filhos precisam aprender sobre finanças em casa do mesmo jeito que nossa geração aprendeu sobre finanças em casa, certo? Só que não! A grande maioria das famílias brasileiras com filhos adolescentes tem pais que só foram aprender sobre finanças pessoais na juventude ou na fase adulta.[2]Então somos pais que sabem a importância de ensinar os filhos sobre finanças pessoais, mas não tivemos modelos de como fazer esta transferência de conhecimento. Talvez isto explique porque o Brasil foi ranqueado como 17 em educação financeira, dos 20 países avaliados na pesquisa PISA.


Quais lições sobre dinheiro são importantes passarmos para os nossos filhos? Segue abaixo uma lista de três ensinamentos que colocados em prática podem dar uma grande vantagem para os nossos adolescentes, a próxima geração de brasileiros adultos.


Lição 1: 70% é muito mais do que nada.

O primeiro dinheiro que um adolescente recebe sem ser para uma despesa específica é sempre marcante. Muitas vezes este primeiro dinheiro chegou na forma de um presente de aniversário, alguma tarefa extra que foi feita ou uma mesada. Ao receber este dinheiro a tentação de gastar cada centavo é quase que irresistível e qualquer sugestão de frear este gasto provavelmente será confrontada com um brado de independência!


No limiar entre não ter dinheiro algum e de repente receber algum valor existe uma lição muito importante sobre finanças. A resposta mais comum para qualquer sugestão de poupar é quase que uma frustação, embora talvez o adolescente mais maduro acate a sugestão por compreender que é sábio poupar. Se os pais não tomarem cuidado, vão permitir que o filho(a) alimente um sentimento de limitação quando a verdade é exatamente o contrário. Perceba que antes de receber este dinheiro o adolescente não tinha nada e agora, por mais que ele(a) separe uma parte para o futuro, terá infinitamente mais do que antes. Este infinitamente mais do que antes é que deve guiar a resposta sentimental do adolescente. O dinheiro não trouxe limitação, trouxe um pouco de autonomia hoje e, quando bem investido, trará um pouco de autonomia no futuro.


Vamos para um exemplo prático. Imagine que até então o adolescente não tem dinheiro e não recebe mesada. No mês seguinte o adolescente passa a receber R$100 de mesada, mas é incentivado a separar 30% para investir, porque se ele(a) criar este hábito em mais ou menos vinte anos consegue viver do rendimento. Qual é a real situação do adolescente?


  • O adolescente tem R$100, mas sente uma certa frustração porque só pode gastar R$70 e fica imaginando o que compraria com mais R$30.

  • O adolescente não tinha nada, mas agora os R$70 deram a ele(a) um sentimento de autonomia e ainda terá o rendimento dos R$30 para gastar em algum momento futuro.


Esta primeira lição utiliza de um conceito em economia comportamental chamada enquadramento (framing). Você já sacou que não é só 70% que é muito mais do que nada? Quanto os pais vão incentivar os filhos a poupar fica à critério de cada família, mas aprender a poupar sem o sentimento de restrição é uma lição para todo a vida.


Lição 2: O dinheiro é prata e o tempo vale ouro.[3]

A relação entre tempo e dinheiro é algo realmente fascinante de se observar. Há exceções, mas, de forma geral, a percepção do adolescente é que o tempo sobra e o dinheiro pessoal é escasso. Devido a esta percepção de disparidade tão grande entre tempo e dinheiro o adolescente tende a desvalorizar o tempo e supervalorizar o dinheiro. A relação inversa entre tempo e dinheiro parece ser confirmada no outro extremo da vida, a velhice. Por isto que, embora não seja possível, tantas pessoas ofereceriam uma boa fortuna por mais alguns dias de vida.


A possível desvalorização do tempo no início da vida pode criar uma âncora, impactando negativamente decisões entre tempo e dinheiro nas outras fases da vida. A lição importante para o adolescente é saber que na coletividade a tendência é valorizar o dinheiro e desvalorizar o tempo do indivíduo. Nesta dinâmica de tempo e dinheiro, sai na vantagem o indivíduo que consiga valorizar mais seu tempo em detrimento do dinheiro do outro. A responsabilidade de definir o valor do seu tempo cabe ao indivíduo, e ele(a) precisa ter disposição de dizer ‘não’ na esperança de uma oportunidade melhor surgir da coletividade. Eduardo Giannetti, economista brasileiro, nos lembra da importância que o indivíduo tem na valorização do seu próprio tempo:


“...o tempo, ao contrário do dinheiro, não é um ativo transferível... é um ativo valioso mas indissociável da pessoa que o detém.”[4]

Esta segunda lição depende de dois conceitos da economia comportamental: ancoragem e custo de oportunidade. Os pais têm um papel importante de ajudar seus adolescentes a valorizarem seu tempo, posicionando seus filhos para negociarem melhor a troca de tempo e dinheiro no futuro. Além disto, de alguma forma é necessário imbuir nos filhos algum entendimento de que o tempo também é limitado e que não pode ser poupado ou capitalizado. Portanto, o bom uso do tempo numa atividade é melhor avaliado em comparação com os usos alternativos que foram recusados. O adolescente terá que escolher entra a vaga de aprendiz, o curso preparatório para a faculdade, o contrato esportivo, tempo com os familiares ou amigos etc. O valor do tempo então é definido pelo custo da oportunidade.




Lição 3: Não existe dinheiro futuro, só dívida.

Os adolescentes estão sendo criados num ambiente onde o consumo imediato é idealizado. Esqueceu o dinheiro em casa? Não tem problema, pode pagar com cartão de débito, Pix, transferência etc. Não tem dinheiro? Não tem problema, pode pagar com cartão de crédito, usar o cheque especial, fazer um empréstimo etc. E se o problema é a urgência, talvez já tenha um crédito pré-aprovado para você. Desta forma os adolescentes vão aprendendo com os adultos à sua volta que a boa vida é financiada com dívidas.


Alerta ⟹ De acordo com o Serasa 65% dos brasileiros estão endividados e quase 62 milhões estão inadimplentes!


O endividamento é resultado de um comportamento fundamentado na crença de que existe dinheiro futuro. A inadimplência é a confirmação de que NÃO existe dinheiro futuro. Qual é este comportamento? O comportamento que leva ao endividamento é a antecipação da compra, comprar antes de ter o dinheiro. Este comportamento não garante o dinheiro futuro, garante a dívida (obrigação financeira).


Pais, talvez vocês estejam se perguntando: “E a importância de ensinar sobre investimento? Será que falar que não existe dinheiro futuro possa desestimular o adolescente a pensar em investir? Afinal de contas, eu não li neste artigo que 70% é muito mais do que nada?”


É possível que seus filhos fiquem um pouco mais preocupados em investir quando souberem que não existe dinheiro futuro. Mas a verdade é esta: postergar a compra, em troca de investimento, não garante dinheiro no futuro! A lição para os filhos é que o mercado quer torná-los grandes consumidores e, se não tiverem condição de comprar hoje, oferece dois caminhos: a certeza de uma dívida ou a possibilidade de dinheiro no futuro. Embora a incerteza dos investimentos pode impactar decisões, a certeza da dívida deve ser ressaltada.


A escolha entre antecipar ou postergar a compra não é somente uma decisão financeira. Existem outros fatores e valores que podem ser mais relevantes no momento e com certeza estes valores devem ser ensinados pelos pais aos seus filhos adolescentes. O que não devemos fazer como pais educados em finanças pessoais é reforçar um ensinamento tão prejudicial como a crença em dinheiro futuro. Claro que para isto, os pais precisam primeiro ter certeza de que eles mesmos já não creem em dinheiro futuro! Lembremos das palavras de uma grande poetisa brasileira, Cora Coralina:


“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

[1] A OECD realiza a pesquisa PISA a cada três anos com adolescentes de 15 anos para avaliar leitura, matemática e ciência. https://www.oecd-ilibrary.org/education/pisa-2018-results-volume-iv_48ebd1ba-en [2] https://invest.exame.com/mf/apenas-21-dos-brasileiros-tiveram-educacao-financeira-na-infancia [3] Na língua francesa, a palavra para dinheiro é argent que é a mesma palavra utilizada para prata. [4] GIANETTI, EDUARDO. O valor do amanhã: ensaio sobre a natureza dos juros. Editora: Editora Schwarcz Ltda., 2005. p. 204.

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